continuu


A luz



Xonei.




No último mês fui bombardeada de ofertas irrecusáveis, cheias de teor alcoólico e caótico. Diziam que a solução dos meus problemas estava naqueles copos de 290, 350, 500ml. Chegaram a dizer que a solução estava em noites sujas, perdidas no meio do mundo. Eles não entendem: três comprimidos antes de dormir bastam. 


  • Nessa última semana lembrei muito da minha infância, como as coisas costumavam ser.
  • Por que?
  • Deve ser por ter perdido tudo. É como se tudo pertencesse a um passado remoto.. quer dizer, pertencem, mas nada daquilo ainda é tangível de algum jeito.
  • Por exemplo...
  • Eu costumava ir ao supermercado Pierre fazer mandado pra minha vó. Eu e algum dos meus primos atravessávamos a Padre Júlio, num alvoroço sem causa, mas legal. E quente... o sol continua o mesmo. Não havia aquela igreja e todos aqueles cristãos transitando diariamente pela nossa calçada. Haviam apenas nós, a família, a casa e os dois jambeiros. O mundo era basicamente aquilo e era nosso.
  • Por que lembrar disso agora?
  • Já disse, eu perdi tudo. Aliás, destrui tudo. Mas voltando ao que eu estava dizendo, o mundo parece ter se esticado pra todos os lados, fazendo com que aquele contexto se tornasse apenas um... mero contexto. Entende?
  • ...
  • Esse ano foi dos bons pra quem gosta de ver o mal. Alcancei um dos super limites inerentes à existência humana. Por isso quando ouvi aquele cara cantar, entendi um sentimento que me rondava há algum tempo... é que não tenho mais medo de morrer, sou mais uma filha da eternidade. E foi tudo feito com minhas próprias mãos e um coração machucado.
  • Não se arrependeu?
  • Foi esse ano também que aprendi o peso que tem a qualidade dos amigos, qual o poder do destino, qual era minha capacidade de sobreviver. Lembrar da minha infância foi importante por assim, sem perceber, compreender aos poucos a que distância me encontro das origens e, principalmente, o porquê de não sentir quase nada por ela. É que há muito já não tenho laços com esses traços. Você perguntou se me arrependi, certo?
  • Sim.
  • Não sei, não sinto nada em relação a isso. Recomeço um caminho feito de lembranças cruéis e umas poucas felizes. Sem drama, é por aí mesmo. É que o mundo não parou pra que eu me levantasse e tirasse a sujeira. Machuquei o rosto, os pulsos, os joelhos e até os pés incharam. Mesmo que bem intencionado, às vezes nem o universo sabe lidar com sua própria força. Ele me empurrou pra bem longe. Distante eu tento me levantar, retomar um caminho que desconheço. Por que? Ora, eu morri e demora pra ressuscitar. No mínimo três dias.


(Source: alpn00)




Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir ou sentir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não lhes podia proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não lhes poderia proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes mesmo de começá-la de verdade. 

 O apanhador no campo de centeio, p. 182



And now I see, we’re still kids in buses longing to be free



“Cala a boca, Wendell”



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